Correr muitos anos e, depois deste tempo, descobrir
que foi um exercício demasiado forte ao corpo pode comum a muitas
pessoas. A corrida é, sem dúvida, um movimento natural para a espécie
humana. Muito fácil de ser praticada, cabe em quase todos os orçamentos
e, no mais, dita a regra do mundo do esporte, apesar do futebol.
Por que falo deste assunto? É como se eu tivesse viajado no tempo, para o futuro, e retornado para contar para todos o que vi.
Iniciei
na corrida de longas distâncias sem nenhuma instrução confiável e, por
tal, sempre me era penoso correr, apesar de sempre ter tido uma ótima
alimentação, horas de sono, hidratação e muito pouca idade.
Depois
de ingressar na Faculdade de Educação Física, me preparado para a
carreira esportiva, já havia experimentado todos os tipos de erros e
acertos na corrida de longa distância. Já havia amadurecido meus
resultados em corridas nas mais diversas distâncias, o que me capacitou
a prescrever o treinamento para outros que pouco ou nada sabiam sobre o
esporte.
Nada muito diferente da realidade de hoje (muitos não
têm acesso aos treinadores de corrida), então comecei a observar os que
corriam, além dos treinados por mim. Invariavelmente as pessoas sempre
queriam mais, muito mais. Treinos leves e fáceis eram difíceis de ser
digeridos. Sendo assim, e reforçados pelo estresse, a ansiedade e a
determinação imbatível, as pessoas corriam sobre uma pressão por
melhores resultados, sem reconhecerem que o tempo poderia ser favorável
ou não.
Quando falo de tempo, falo do tempo que levamos para
amadurecer e do tempo que nos conduz a caminhos não tão interessantes
assim, como o da velhice, do adulto, dos que não têm mais tempo para
descansar, para se alimentar, daqueles que não aprenderam a se
alimentar adequadamente, enfim, este tempo é, sem dúvida, o tempo mais
importante que o corredor deverá reconhecer e aprender a controlar.
Sem
controle de suas emoções, os treinos irão muito além das condições
físicas favoráveis do momento, as periodizações ficarão sempre
adiantadas e o corpo, ah este velho e conformado corpo, seguirá
silencioso o seu derradeiro caminho da autodestruição.
No
decorrer dos tempos, corredores veteranos começaram a sentir o que nem
imaginavam jamais imaginaram: Dores provindas de Calos ósseos
(formações acumulativas nos ossos, que aumentam abrupta o volume local,
comprimindo tendões, ligamentos e músculos), que obrigam os mais
corajosos a abandonarem a corrida.
Alguns casos, quando
ocorrem em pessoas mais jovens, podem se dar ao luxo de se submeter a
uma operação, porém, se for o caso dos mais idosos e não estiverem em
condições ou a fim de passar por um procedimento cirúrgico muito
doloroso, então, o abandono da modalidade é a solução.
Sem
querer discutir o que pode ser forte ou fraco ou se alguém tem o
direito de forçar seus treinos, fica aqui a recomendação de treinar em
períodos de no máximo cinco meses, dando o devido descanso para a
recuperação geral do organismo, planejar descansos periódicos durante
as semanas que se seguem no ano e, por fim, sempre que a dor surgir,
dar um passo para trás para descansar a da lesão ressentida.
Seguir
pelo quadro da qualidade de vida, contida no meu livro e em um dos
artigos aqui publicado, pode ser uma forma de recuperar os estados em
que o corredor fortemente intencionado, não tenha percebido.
O
descanso providencial pode ser a maior recompensa ao corpo que sente a
sobrecarga desmedida. Então, faça uma autocrítica de seus treinos e do
seu dia a dia e siga os treinos, hora fortes e hora fracos e, por que
não, o descanso absoluto para ficar tudo bem com a vida, afinal, o que
mais vale em tudo isto é de fato, o tempo.
Bons treinos e boas provas
Miguel Sarkis
*Miguel
Sarkis é Personal Trainer há 33 anos com Certificação Técnica de
Atletismo pela IAAF e diretor técnico da assessoria esportiva Miguel Sarkis;
Formação para Técnico em Atletismo; Especialização em Obesidade,
Cardiopatas e Idosos; Desenvolve programa de qualidade de vida para
pessoas de baixa renda na USP Leste (projeto Periferia Legal), e é
autor do Livro: A Construção do Corredor – Editora Gente. Para
acompanhar Miguel Sarkis: blog.miguelsarkis.com.br